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13 de setembro de 2012

A Sabina de antigamente - Conto - Blog e-Urbanidade

Sabina era a típica mulher fatal, deliciosa e se estivesse na mídia receberia algum nome de fruta. Seria uma verdadeira salada de frutas diante da bunda e seios fartos. Não havia um ser vivo, por onde passasse que não parava para vê-la. Os homens tinham desejos lascivos e as mulheres, morriam de inveja. Mas, tudo era feito por ela despropositadamente, apenas sabia que lhe caia muito bem as minissaias, os corpetes sem alças, as calças justas, os saltos altíssimos e um batom extremamente vermelho nos lábios. Era tipicamente uma mulher sensual.  Quente na cama. Levava todos à loucura.

Os rapazes tentavam se aproximar dela, meio assustados diante de tanta exuberância. Namorou vários e não sabia ao certo quando teve um caso de amor duradouro. Muitas vezes, o sujeito até era seguro, tinha certa autoconfiança, mas era só passar com a moça em algum lugar ou ir a uma boate e ao perceber que todos os olhares iam em direção a ela para o castelo começar a ruir. Até os nãos ciumentos começavam a desenvolver algum tipo de neurose e quando menos se esperava, a relação acabava e Sabina ia novamente paquerar em alguma roda de samba ou baile funk. Ser uma mulher fatal talvez não seja tão fácil.

A relação mais duradoura que teve foi com Xavier. Sujeito boa pinta e rico. Adorava mostrar a mulher para os outros que entre uma saída da moça ao banheiro ou coisa do gênero rolava sempre uma cantada dos amigos. Foi quase um ano de muitas idas a festas, lançamentos de carros, inauguração de lojas de grã-fino e ela exposta como se fosse um frango no espeto numa padaria.  Tudo acabou quando a moça viu o namorado se pegando com uma vendedora feinha de uma loja de roupas na Oscar Freire. Foi ali que decidiu, em definitivo, que nunca mais se apaixonaria por algum homem. 

Como o destino sempre gosta de aprontar das suas, foi ali, numa loja de departamentos, desta que se compra qualquer coisa e divide em oito vezes que a moça cravou olhos em um rapaz normal. Obviamente não era rico, porque estava comprando camisas e calças sociais para o trabalho. Também não tinha um corpo malhado em nenhuma academia, pois uma barriga saliente apontava na camisa social. Tinha cara, também, que saíra a pouco de algum escritório por perto, pegaria um trem ou metrô, atravessaria a cidade para voltar à labuta no dia seguinte. 

Olhou o rapaz tão atentamente que chamou sua atenção. Claro, de início, ele imaginou ser algum engano, afinal como tão prodígio da natureza feminina poderia sentir qualquer interesse por ele, um sujeito tão normal? Ela fingiu escolher um acessório qualquer na arara da loja e foram para a fila juntos. Ela não conseguia disfarçar o interesse por aquele rapaz tão comum.

Pagaram à conta, ele dividiu a sua em algumas parcelas e, como sabia que ele não tomaria a frente, ela disse que gostou da cor de algumas camisas. Ele agradeceu e antes que fosse embora para o mundo, ela o convidou para um lanche, ali mesmo na praça de alimentação. Inicialmente o rapaz estranhou o convite, mas já que morava por perto e estava de carro – um de qualquer tipo, popular e motor 1.0 - , aceitou. Bateram papo como se fossem grandes amigos. E se despediram com a troca de telefones e um beijo cordial nas faces mútuas. 

Encontraram-se na mesma praça de alimentação e viram as luzes serem apagadas e o shopping sendo fechado por inúmeras vezes. Dias depois deram o primeiro beijo e fizeram sexo algumas semanas depois, ela, como sempre, voraz. Ele, tímido, não sabendo ainda ao certo se era muita areia para o caminhão dele.

Após uma noite longa de sexo, ela acordou, tomou uma ducha e ao voltar para o quarto viu o rapaz ali, estendido, cansado e dormindo. Imediatamente o coração apertou e um sorriso brotou, sem sentido, no rosto. Sentiu-se amando aquele sujeito e precisava dizer isso a ele.

Tocou os lábios dele com os seus e ele abriu os olhos, um pouco assustado, mas se acalmou rapidamente. Ouviu um “eu te amo” em seu ouvido e disse de volta um “eu também”. Se beijaram loucamente, fizeram sexo novamente e ela deitou sobre o seu peito, na certeza de que agora sim era uma mulher completa.

Os próximos dias foram estranhos para Sabina, de repente não sentiu mais vontade de usar suas minissaias e os tomara-que-caia. Começou a comprar, sem perceber, roupas mais largas, pintou os lábios com uma cor mais suave, também o fez com as unhas das mãos e dos pés. E não aguentava passar um dia longe do seu amor. Conseguiu até escrever algumas linhas de amor, mas acabou mesmo foi copiando uma poesia da internet para por no cartão do presente do dia dos namorados.

Aquela mulher visceral foi dando lugar a uma mulher mais calma na cama. De poucas posições, de menos exibicionismo e mais palavras de amor ao pé do ouvido. Não sentia mais vontade de fazer sexo várias vezes ao dia ou todo dia. Encontrar aquele homem diariamente, dormir no seu peito parecia ser o mais importante. E após uma transa, decidiu que definitivamente amava aquele homem e não era mais a Sabina de antigamente. 

Imagem do site Comic House. 

12 de junho de 2011

O Código da Vinci - Blog e-Urbanidade

Agora ele resolveu ler o tal O Código Da Vinci. E não parava de ler! Isso era bem comum. Quando pegava uma obra, não sossegava enquanto não chegava à última página. E nunca ouvia uma pergunta de primeiro. Sempre tinha que haver um bis, depois de um "hum?!". Aquilo a deixava louca! Sempre tinha que repetir a pergunta e a resposta era sempre rápida, desentendida ou com monossílabos.

Ele relutou muito para ler o livro. Sempre teve uma certa ojeriza a best sellers e lista de mais vendidos. Mas dessa vez não teve outro jeito. Parece que as cores vermelhas da capa brilharam quando passou perto da estante. Meio escondido, comprou, começou a ler e não parava. Para desespero dela.

Mais de duas semanas de leituras ininterruptas. Ele chegava do jornal, tomava banho, comia algua coisa, entrava num diálogo rápido e curto e, de repente, sumia. Estava em algum canto da casa lendo mais algumas páginas do livro. Quando saia de lá, ia para o quarto. Dava uns beijinhos, fazia uns carinhos... e acendia o abajur. Lia mais alguns minutos (ou horas!).

Ela ficou meio assustada quando soube que o livro havia sido proibido pela Igreja Católica. Tentou até dar uma folheada para ver se tinha algum desenho ou símbolo macabro. Não viu nada demais, apenas letras, aliás muitas letras. Preferiu ficar quieta. Mas o que mais a atormentava é que após aquele, haveria outro e outro, depois outro... Ele adorava ler.

Ela gostada de ler, mas nem tanto. "Aquilo parecia fixação, meu Deus!", pensava ela. "Será que ele está fugindo de mim?", começou a divagar. "Será que ele não me ama e usa os livros com uma válvula de escape?", questionou em prantos numa prece antes de dormir.

Fez o prato que ele mais gostava e abriu todas as portas para que o cheiro chegasse nele. E nada dele aparecer. Contou até mil e resolveu chamá-lo. Ele demorou mais uns quinze minutos e veio com o livro na mão. "Acho que entendi porquê esse livro está proibido", concluiu ela. "Acho que deve separar um monte de casais".

Era tarde da noite do décimo dia quanto dele terminou a leitura. Apagou a luz e suspirou, sentindo que estava com a missão cumprida. Deu uma encostadinha nela para ver se ela acordava. Ela não se mexeu. Fingiu de morta. Não queria dar o braço a torcer.

Ela tomou uma decisão na manhã seguinte: agora, era ela que ficaria dez dias sem falar com ele direito. Iria arrumar alguma coisa que chamasse a atenção dela e esquecesse dele. "O que poderia ser?", perguntou pra uma amiga. Depois do trabalho resolveu andar no shopping. Nada melhor para uma mulher! Entrou numa livraria e ficou olhando, como se estivesse em terra inimiga. Achou um livro perfeito! Comprou uma versão de Kama Sutra e deu a ele de presente. Sempre na hora de dormir, apenas esse livro podia ser lido. Eram ordens expressas dela! E olha que nunca se falaram tanto!

Série  "Felizes para Sempre"
Publicado no Tribuna do Brasil, 
dia 14 de abril de 2005. 
Caderno Maria Bonita.

3 de maio de 2011

Tati Quebra Barraco ou Zuu? - Conto - Blog e-Urbanidade

Ele estava numa enrascada. Há quase um ano foi para o Rio cobrir uma feira de livros. Aproveitando a estada, teve que fazer uma matéria para o jornal. Apesar de não ser seu tema preferido, quando se é pautado, não há outra escolha! E lá foi ele, assistir um show de funk na Cidade de Deus  e entrevistou uma tal de Tati Quebra Barraco que estava de malas prontas para Londres. Tati era totalmente up to date, última moda, quase uma cult no mundo dos descolados.

Agora a musa do funk carioca estava na capital. E o pior, a esposa do nosso jornalista estava desesperada para conferir o show. E ele, quando pensava naquele monte de gente amontoada, tinha certeza que gostaria de nem aparecer por aquelas bandas. E ele nunca fora fã daquele tipo de música.

Ele pensava numa forma de convencer a esposa a mudar de opinião. Convidou para um jantarzinho à luz de velas, a ida a um novo restaurante, uma passadinha na cada da mãe dela... E nada tirava a ideia fixa da mulher.

"Faça o que quiser", desesperou-se ele, apresentando a última cartada. "Vamos aonde tiver vontade"Ela pensou, preparou e atirou: "Quero ir naquele restaurante...", e deixou um silêncio no ar, suspense, "... no Zuu", terminou ela.

Mais silêncio, ele pensou nas contas e ela também. Sabia que não havia outro jeito: ou ele ia com ela no show ou teria, pelo menos, que buscá-la ao final. Mas há muito tempo eles precisavam curtir um momento a dois, num bom restaurante, com uma boa bebida. Topou! Ela nem acreditou e, finalmente, foi dobrada!

Fizeram a reserva, se arrumaram e passaram no banco para tira as folhas de cheque. Ele pediu a entrada e uma garrafa de champagne. Depois veio o prato principal . Ele pediu o camarão e ela preferiu repetir a entrada, mesmo que parecesse errado, mas não resistiu a mais um pouco de foie grass.


Pediram cada um a sua própria sobremesa, não entraram em acordo. Depois mais champagne. Tomaram duas garrafas! Ele, que era muito fraco para bebidas acoolicas, assinou o cheque meio tonto e quase trocando algumas linhas. Os dois eram pura felicidade e descontração.

Foram embora, animados! Queriam esticar a noite. Mas o que fazer? "Que tal Tati Quebra Barraco?", ele perguntou. Ela ficou sem ação, apenas sorriu e, claro, preferiu ir pra casa. Conhecia seu marido. Ele não gostava do gênero musical e em poucos minutos ia cair no sono.

Quando chegaram em casa, ela mesma tratou de fazer o show: "Sou cachorra, sou gatinha, não adianta se esquivar, vou soltar a minha fera, eu boto o bicho pra pegar."E o bicho pegou foi... no sono! Ela, que não teve como soltar a fera, dormiu logo depois, tonta. A noite fora perfeita! E vamos combinar: em grande estilo!

Publicado em 07 de abril  
de 2005

15 de fevereiro de 2011

Fahrenheit 9/11 - Conto Felizes Para Sempre - Blog e-Urbanidade

Os convites estavam sobre a mesa esperando para serem colocados na carteira e deixá-los enra na pré-estreia.  era o filme. Ela já tinha lido quase tudo sobre o tal documentário e tinha uma certa birra pelo diretor. Mas preferiu não se deixar envolver pelas críticas ao ir, junto com ela que detestava cinema, àquela sessão para poucos.

Enquanto terminava de passar o perfume e pentear o cabelo, dando um toque desajeitado, ela continuava assistindo a novela. Ela odiava cinema e tinha casado exatamente com um crítico da área. "Coisas do amor", repetiam os amigos para explicar aquilo.

Era insuportável pensar na possibilidade de assistir um documentário: americano, logo ela que adorava MPB; falando de 11 de setembro, ela que detestava fins trágicos, de um diretor gordo e chato, ela que só vivia de dieta.

Por isso demorava muito. E ele já estava irritado com aquela lentidão. "Quando é para ir nos shows de MPB, ela fica pronta duas horas antes", sentenciava ele enquanto ela vinha devagar para o banheiro, mas com os olhos na tevê tentando ver uma última cena.

Ele preferiu ir para sala e tentar se acalmar. Ela se aprontou e foram para o cinema. Chegaram em cima da hora e pegaram um lugar péssimo. "Tudo culpa dela. No próximo show que me chamar, ela vai ver", pensava ele. "Agora vou ter que assistir esse filme chato nessa primeira fila!", mais irritada pensava ela, enquanto começava a projeção.

As primeiras cenas vieram e toda a raiva dele foi passando e a dela foi dando lugar a um sono profundo. Ela dormiu! Ele nem viu. Ela adorou quando chegaram os créditos e ele logo se envolveu numa discussão sobre o filme com um colega do jornal que estava na saída. No fim, gostaram de tudo: ele de ter a campanhia dela e de assistir aquele filme tão esperado. Ela de ter descansado umpouco e ter acabado a projeção. Talvez seja por isso que estejam juntos até hoje.

Publicado em 17 de março de 2005

5 de fevereiro de 2011

Mais um conto da série "Felizes para Sempre" - Blog e-Urbanidade

Lenny Kravitz

Ela era pura ansiedade. Finalmente ia ver o esperado show, do cantor que tinha todos os discos: Lenny Kravitz. Sabia todos os refrões, todas as letras, rimas e até tinha uma grande foto dele escondida atrás dos lençóis do armário, para que o marido não visse. Ele não fazia nenhuma questão daquele show, mas como ela tinha ido com ele no lançamento daquele filme cabeça dia atrás, não havia escapatória.


No sábado choveu o dia inteiro. “Amor, você não acha que pode pegar uma gripe com tanta chuva?”, tentou ele. Ela nem respondeu, começou a mudar o figurino. A sandália aberta foi trocada por um sapato fechado, a calça na canela por uma comprida. E ele desistiu de buscar por alguma coisa que fizesse mudar de ideia.

Sempre que tentava dizer que não ia ou pensava num discurso definitivo ou até mesmo grosseiro, vinham à mente as palavras de uma amiga dela: “Você é um marido exemplar. Vai até ao show com ela! Queria que seu marido fosse assim!” Pronto aquilo era suficiente para prosseguir naquele programa impossível.

E lá foram eles. Ela, entre as amigas, estava preparada para o show enquanto chuviscava. A multidão a porta, misturada com o cheiro de churrasquinho e pipoca, assustava. Ele ia andando como um animal para o abatedouro. E ela em puro entusiasmo. Veio o show de abertura, mas outro e nada do tal cantor pop aparecer.

Depois de muito barulho, Lenny entrou. A multidão ficou extasiada. Com certeza o marido não suportaria até o fim! Decidiu se enfiar entra as pessoas e procurar por uma cerveja ou até mesmo um copo de água. Explicou a intenção pra ela, ma não foi ouvido. Cantava um dos refrões que mais gostava. Entenderam-se com a linguagem dos sinais mesmo.

Comprou uma cerveja e foi tomando em goles curtos e demorados. Pegou no papo com um marido que também esperava pela esposa. “Incrível que existem outras pessoas como eu”, pensou com os botões. De repente descobriu uma legião deles, mulheres e homens que estavam ali apenas para acompanhar o parceiro, amigo ou quem quer que fosse.

Hora do bis, do mais uma. Começaram a dispersar e o celulares a tocar. “Estou debaixo da barraca vermelha”, “Mais à direita”, “À esquerda do palco”, “Estou te vendo aqui!”. E assim iam se encontrando. A despedida dos companheiros de espera era feita com adeus ou por olhares rápidos.

Finalmente, ouviu: “Amor, não foi maravilhoso! Te amo!”, disse ela, abraçando e dando um beijo longo, meio suado, mas carinhoso. Não dava para dizer mais nada. Demoraram quarenta minutos para sair do estádio e mais cinquenta para conseguir chegar ao carro e sair do engarrafamento.

Eles tomaram um banho quente quando chegaram em casa e dormiram abraçados, ainda com os cabelos molhados. E lá no subconciente ainda ecoava uma das letras do cantor da noite. “Temos que amar e facilitar as coisas”. Are you gonna go my way?

Publicado em 31 de março de 2005.

30 de janeiro de 2011

Felizes para Sempre - Conto - Blog e-Urbanidade

Ela sempre gostou de sair de casa, mesmo que fosse para comprar um jornal na esquina. Gostava de almoçar, jantar, tomar o lanche, um sorvete, conversar com as amigas, desde que fosse fora de casa. Estava sempre, mais ou menos, pronta pra sair. Bastava um retoque na maquiagem, a troca de alguma peça da roupa e pronto. Já estava lá fora.

Ele já era caseiro. Tentava de todas as maneiras não sair. Preferia comer um miojo feito em casa do que ter que sentar em algum restaurante. Assim, evitava cumprimentar um monte de gente pelo caminho ou comer com uma criança que chorava na mesa ao lado. Até por isso, tinha fixação por aqueles serviços de entrega. Tinha cardápio de todo tipo e era amigo de vários entregadores ou atendentes de telefone. E para sair, sempre tinha uma barba a fazer e a roupa pra trocar.

Ela adorava ouvir música. Tinha todos os lançamentos. Sabia da vida de todos os artistas e quando ia ao show de algum deles, era daquelas que cantava a música todinha. E nunca tinha paciência para filmes, dormia logo depois do trailler.

Ele já adorava cinema. Sabia de todos os diretores, datas, detalhes. Foi crítico de cinema numa revista da faculdade e acabou seguindo carreira no jornal da cidade. Tinha todos os clássicos e não tinha um filme que não soubesse alguma informação. Já de música, não gostava muito.

Num dia de chuva, a luz da casa dele acabou e teve que ir comprar velas. Ela acabara de sair de um show de voz e violão de algum cantor recém conhecido. Por causa da mesma chuva, foram se esbarrar na marquize do mercado, pois até o show teve que parar por causa do temporal. Ele e ela se cruzaram, se olharam e sorriram. Ele se esqueceu das velas e ela das músicas do amigo cantor.

A conversa começou a fluir. Falaram da chuva e descobriram que gostavam dos dias chuvosos. Ele disse que adorava tomar chocolate quente nesses dias e ela, também. Ele explicou que foi comprar vela naquele supermercado que odiava. Ela achou impressionante a semelhança, pois ela também odiava ir alí. A conversa foi indo e descobriram os mesmos gostos: no sabor do sorvete, na cor das roupas, nos dias da semana preferidos...

Quando a chuva melhorou, desperiram e descobriram que tinham o carro da mesmar cor, prata. Riram muito das coincidências e ficaram impressioandos com tanta semelhança. Por isso e por outras mais, casaram e... Foram felizes para sempre?

Ela me disse, há dias atrás, que ele andou melhorando, foi até no show do Caetano com ela. Claro que ele pediu para ela parar de cantar, pois tinha pagado uma fortuna por aquele lugar e queria ouvir o cantor. Ele me confessou, na conversa que tivemos à beira da piscina, na feijoada do aniversário dele, que ela pelo menos sabia quem era Mazzaropi e que até achou interessante, assistir Cidade de Deus em um cinema antigo da cidade que não vendia grandes sacos de pipoca caríssimos.

São felizes, sim. Hoje nem se lembram das semelhanças, só falam das diferenças. Repetem pra todos a mesma história de como se conheceram. Mas no fim, dão um beijo e sorriem. Não se largam. Amam-se! Acho que amar é isso, apaixonar pelas diferenças. Acho que talvez ele até tem vontade de sair mais e gostar de música e ela, de ficar em casa e ir ao cinema. Todos nos apaixonamos pelas diferenças, mesmo que, no final das contas, as semelhanças acabam sendo esquecidas, com o tempo.

Publicado em 24 de março de 2005
Próxima semana tem mais

30 de março de 2010

Estrela - Conto - Blog e-Urbanidade

Tem um conto que escrevi há uns cinco anos atrás que divido com vocês aqui. Espero que gostem, pois curte muito fazê-lo.


ESTRELA

Já se falaram em tantas estrelas nas poesias e nas cartas de amor. Das que estão nos céu já disseram que são olhos de Deus iluminando os corações enamorados. Das que estão no mar, falaram que nasceram de uma paixão que aconteceu entre o mar e uma estrela pendurada no céu.

Da que vou falar nasceu em uma máquina de costura, com cinco pontas e de um tecido azul. Parece até mesmo uma falta de sensibilidade começar a falar dela tão secamente, assim tão sem romance. Mas nela não tinha brilho, apenas tinha uns bracinhos que foram pregados para dar a sensação de conforto para quem a abraçasse.

E foi em um abraço que tudo começou, ou melhor, iniciou-se até antes disso, mas já que estamos falando da estrela é melhor nos concentrarmos nela.

Lá estava o tal bonequinho em formato de estrela sobre o sofá no quarto do rapaz que Nildo acabava de conhecer. Na verdade se beijaram muito a noite inteira e tiveram um interesse mútuo em questão de minutos. Claro que desejavam ir para algum lugar rapidamente para poder consumar tanto desejo, mas preferiram deixar para o dia seguinte. Também não decidiram fazer isso por uma convenção ou por decisão mútua, foi mais ou menos coisa do destino. Na saída do bar os carros estavam longe, havia um amigo atrapalhando e uma carona para ser dada, então era melhor ir embora e deixar os telefonemas anotados nos convites que ficavam espalhados sobre as mesas do bar.

No dia seguinte, não resistiram. Beberam muito em algum lugar e foram parar no quarto onde havia a tal estrela. Foi tudo muito fulgaz, forte e juvenil, assim como devem ser os encontros inesquecíveis. Aquela certa tensão é fundamental nestes momentos. Saber quem vai começar, que posição ficará melhor e aquela vontade de ser original e inesquecível são fundamentais para que tudo seja chamado de primeira vez. São cheiros, beijos, olhares, sustos, constrangimentos, esperas, desconfortos, palavras sem sentido... até tudo se acabar, cada um para o seu lado, suados e querendo dormir.

Dormir é muito bom nestes momentos. Não conheço quem não goste. E assim foram eles, mas Nildo sempre precisava fazer isso abraçado a um travesseiro. Como não estava na sua casa e estava a fechar os olhos, abraçou a tal estrelinha azul. Dormiram juntos, foi uma companheira e tanto.

Os bracinhos da tal estrelinha pareciam que abraçavam o rapaz, pareciam que foram eles os amantes naquele noite. Nem mesmos as mudanças de posição durante a noite foram suficiente para separá-los. E ninguém pensa que ela ficou com o pior de toda a história, na verdade penso até que ela tenha ficado com a melhor parte, pois depois do tesão o melhor é dormir abraçado com quem se ama. Parece que é ali que os laços se fazem, se firmam e concretizam.

E foi realmente isso que aconteceu. Nildo acordou, soltou a estrela automaticamente e a deixou caída no chão. Despediu do amante e foi embora para o mundo. Quando falaram ao telefone mais tarde, os amantes lembraram de alguns detalhes, sorriram e ruborizaram de alguns momentos. Sem dúvida repetiriam tudo aquilo novamente, agora sem a precariedade e incertezas da primeira vez. E para o dono da casa foi inesquecível acordar e ver Nildo abraçado com a estrela. Ao mencionar tal visão, Nildo imediatamente lembrou-se que ficou abraçado a alguma coisa, uma estrela, mas não lembrava com detalhes. Precisava vê-la novamente.

Marcaram um novo encontro e trataram de passar pela casa onde habitava a tal estrela. Quando Nildo a viu ali, sobre o sofá, imediatamente lembrou-se da noite em que passara abraçado a ela. Pareceu coisa de vida passada, diria um espiritualista. Começou a relembrar cada mexida, gesto, abraço, aperto e suspiro. O rapaz de repente sentiu aquele momento de prazer inesquecível eternizado naquele bonequinho azul em forma de estrela.

Não sei dizer se os amantes ficaram juntos, se o tal rapaz deixou de ser apenas um sujeito sem nome, mas sei dizer que Nildo não esquece a estrela e lembra dela quando abraça o seu travesseiro. Pensou até em comprar uma dessas para substituí-la nas memórias noturnas, mas com certeza não seria a mesma. Talvez devamos guardar uma mensagem de tudo isso, os verdadeiros amores nascem do contato e do abraço enquanto estamos inconscientes, pois quando estamos conscientes estamos vivendo o amor dos homens e nunca dos poetas.

9 de janeiro de 2010

Dieta - Conto - Blog e-Urbanidade

Enquanto curto os Estados Unidos, segue uma crônica escrita em 2006.


O relógio despertou lembrando que já era segunda-feira. O fim-de-semana havia acabado, aquela preguiça natural dos dias que não se faz nada tinha que ir embora. Era hora de por o pé no chão frio, caminhar até banheiro, fazer aquelas necessidades iniciais e entrar no chuveiro.
E assim começou a semana, tudo iria repetir: o caminho para o trabalho, rever os colegas da repartição, ouvir e rir de alguma piada nova de algum amigo, ligar-desligar o computador, pagar contas, olhar as pessoas na rua, dar um cochilo após o almoço, ver o noticiário da televisão e reclamar do governo.
Quando a primeira gota de água caiu sobre a cabeça, lembrou-se que aquela segunda-feira trazia uma novidade, era dia de começar a nova dieta. Já havia feito as compras necessárias, leite desnatado, não-sei-o-que light ou diet, o cardápio já estava pendurado na porta da geladeira com a lista de possíveis alimentos de troca. Por exemplo, pode-se trocar uma maçã por meio pedaço de pêra ou duas laranjas...
Tudo preparado, como se fora uma trincheira. Fora tirado dos armários todos os restos de biscoitos doces, o doce de leite que sobrava foi doado para a faxineira, o último amendoim adocicado foi comido na sessão de cinema assistida na noite anterior, as cervejas foram consumidas com os amigos no sábado e as barras de chocolate foram traçadas como sobremesa do jantar que aconteceu no sábado, com direito a muitas calorias, afinal de contas, começaria hoje a dieta. Era a despedida.
Enquanto passava o sabonete pelo corpo, foi fazendo planos sobre qual roupa poderia vestir daqui alguns meses, sobre aquela calça que insistia em não dar para os outros, pois acreditava que ainda poderia vesti-la. E também já imaginava os elogios pelo emagrecimento, o corpo que ia tomando jeito. Sonhava...
Percebeu que não poderia demorar tanto debaixo da água, saiu, enxugou, mas antes parou em frente ao espelho. Apertou as gordurinhas localizadas espalhada pelo corpo, na altura da barriga, nas costas, nas pernas, no rosto... Tudo acabaria em breve. Respirou mais fundo, segurou o ar e imaginou-se sem a barriguinha. E foi fazendo mais planos.
Vestiu a roupa e saiu em direção a cozinha. Olhou fixamente a dieta e começou a organizar o café-da-manhã:
Laranja... não gosto de laranja,pensou. Deixa ver o que posso trocar... Umh... Já sei vou comer meia pêra. Mas, meia? Vai estragar a outra metade. Deixa eu pensar, então vou tomar um copo de suco: meio copo. Perfeito!
Agora, é o pão... Integral, uma fatia de peito de peru... Mas assim, seco? Nem uma margarina light? Vou passar alguma coisa, deve aumentar umas vinte calorias... Já sei, vou tirar metade do peito de peru... É a lei das compensações!
Leite, café, beleza. Adoro! Pronto, delícia. Nem estou sentindo fome, estou satisfeito!
E levantou da mesa, lavou a pêra e cortou em dois pedaços, colando em vasilhas diferentes. Estava pronto o lanche do meio da manhã e da tarde.
No caminho para o trabalho sentia-se recompensado. Parecia que a calça já cabia melhor, já sentia-se alguns gramas mais magro. Será que já receberia algum elogio ao entrar no escritório?
Nada de elogios! Era aniversário do chefe e havia um delicioso café-da-manhã esperando sobre a mesa no canto da sala. Cheio de frutas, sucos, salgadinhos fritos, refrigerante, pastas, pães dos mais variados tipos, manteiga.
Parabéns pra você... puxou a secretária gordinha e animada.
Por que todo gordinho é tão animado?, pensou
Viva o seu Fernando!, gritou a secretária.
Viva, respondeu o “cordão dos puxa-saco”.
Atacar!, mandou a gordinha animada.
Será que eu como?¸começou o pânico. Mas não posso, só posso comer fruta daqui a duas horas. Puxa, o pão-de-queijo está quentinho. Adoro
E foi passando a secretária com um pratinho cheio de salgadinhos para a chefe da sala do lado que não podia vir:
É para a dona Carminha, está em reunião. Vou levar pra ela.
Puxa-saco, pensou todos.
Não vai comer não, gritou a secretária maldita depois de levar o pratinho. Não vai dizer que está de dieta?
E a pergunta parece que propagou pela sala. Todos pararam de falar e olharam fixamente para ele, tentando não ser notado.
Estou tentando, respondeu meio sem-graça.
Eu desisti disso, arrematou a maldita secretária batendo as ancas nos amigos enquanto vinha em sua direção.
Parecia que um foco de luz vinha trazendo em sua direção a arrasadora de dieta e todos comentavam sobre algum programa desse que havia feito e não deu certo. Aliás, todo mundo tem uma dessas histórias para contar.
Não teve como, pensou bem, fez alguns cálculos rápidos: diminuiria um colher de arroz no almoço. Assim, comeu um pão-de-queijo e conseguiu livrar-se de todos, inclusive da secretária.
A manhã terminou bem, comeu a metade da pêra na hora marcada e preparou-se para almoço. Deve-se lembrar que não adiantou em nada a tal fruta, a fome que era fraca, parece que ficou maior ainda. Começou a olhar discretamente para o relógio do computador, aguardando o final de tal sofrimento.
Finalmente, juntou as coisas e foi com os colegas para o restaurante da empresa. Na fila, com o prato na mão, começou a fazer estimativas... Mas a picanha que era passada na chapa cheirava maravilhosamente. Preferiu parar nas saladas: alface, tomate, beterraba, batata... Não! Nunca pode comer batata, o manual da dieta diz: se comer meia batata, tem que diminuir mais um colher de arroz.
Como já comi um pão-de-queijo, não vou comer nada de arroz!?¸concluiu. Melhor não comer batata!
Continuou servindo do tal buffet de salada. Tudo temperado com sal e uma gotas de limão, sem óleo, acompanhamento especial de salada...
Todos os colegas ficaram admirados com a força de vontade dele. Mastigava devagar, sem refrigerante ou suco, apenas um copo d´água. Terminou. Voltou para a fila e agora poderia servir-se do que interessava: uma, apenas, colher de arroz, uma concha de feijão, mais alguma verdura cozinha e nada de picanha... E como cheirava bem. Um grelhado de frango do tamanho da mão aberta, era esse o pedido!
Voltou para a mesa e comeu lentamente, devagar... Todos os amigos cortavam e deliciavam com a picanha. Ele preferiu lembrar da calça que não servia mais...
Fim do almoço! Duas horas depois, a fome voltou. Hora da outra metade da pêra.
Não adiantou nada, percebeu, desesperado. Vou tomar água!, decidiu.
Muita água, muitas idas ao banheiro, terminou o primeiro dia da dieta. Hora de mais um lanche: duas fatias de pão, queijo e presunto magro e um copo de suco. E só! Mais quarenta minutos de esteira.
Finalmente, de volta em casa. Mais um copo de suco, salada e um grelhado.
Destesto grelhado, pensava mais uma vez. Mas vou caber, finalmente, na minha calça.
Fim do dia. Barriga ronca. Fome. Melhor dormir! Amanhã será um novo dia... De dieta! Mais grelhados, saladas, frutas, sucos, nãos, copos d´água, barriga roncando...
Maldito tempo pós-moderno. Só é belo o que é magrelo! Queria ter nascido na época do barroco, concluiu, verificando se já cabia melhor na tal calça dois números menor.

20 de agosto de 2009

Nandinho - Conto - Blog e-Urbanidade

Estamos próximos de mais duas empreitadas para este ano. Vou contar para vocês em breve. Enquanto isso... vou colocar um texto meu, que gosto muito aqui.

Preciso confessar que em alguns momentos eu fico meio sem o que escrever por aqui, falar só de novela, sei que cansa um pouco. Também os que passam aqui nem deixam recado, daí o desânimo bate mesmo.

Fim do desabafo, sai a procura de um texto antigo, acho que isso é perfeito para estes momentos.

Tenho tanta coisa escrita e guardado no meu computador. Então, achei este texto. Juro que fiquei emocionado com meu próprio texto, após um reencontro de quase cinco anos.

Acho que vale a pena ler. É meu grandinho. E está registrando na Biblioteca Nacional, registro 383356, em 27/07/2006.


N A N D I N H O



Nandinho: era assim que o chamavam em sua casa. Claro que não compreendia como haviam chegado em tal diminutivo, pois se os apelidos tem como objetivo diminuir um nome e torná-lo mais simples ao ser chamado, aquele não tinha essa função. Nascera com o tal nome de Fernando, igual ao pai, então o Nandinho tornara sua graça para diferenciá-los, porém com o mesmo número de letras. Logo não era um apelido, era um outro nome. Talvez fossem duas pessoas! Talvez assim fica melhor para explicar!


Enquanto era Nandinho gostava de brincar com suas doces fantasias pela casa. Não sentia culpa por imaginar-se como o rei de um país inexistente e passar à tarde se portando com tal. Era o momento do poder, de destruir as pessoas que não gostava, de corrigir os erros alheios, enfim de ser um ser absoluto. Alí, a lógica que imperava era a das alegorias. Se alguém visse tudo aquilo, poderia dizer até que não era tão fantasia assim, afinal representava os próprios personagens da sua casa, mas preferia não pensar nisso, pois tem hora que precisamos esquecer as tais psicologias e vivermos dos sonhos...


Foi num dia normal, nestes que não tem nada de diferente no céu ou que existe um cheiro diferente no ar. Afinal, o dia estava desprovido de qualquer fantasia. Talvez fosse uma quarta-feira, já viu um dia pior do que esse? É puro sanduíche dos prazeres, o último dia de descanso ficou há dois dias atrás e o próximo está a mesma distância. O corpo já meio que reclama pelas posições incorretas que o trabalho exige... Mas, ainda temos dois dias de trabalho...


Também neste tal dia já existia televisão, logo o que melhor faziam os adultos neste momento, após um árduo dia de trabalho? Mudam-se e ficam mudos diante de tal aparelho. E a fantasia das crianças? E as brincadeiras de Nandinho? Ainda não acabaram! Claro, que não podem acontecer na tal sala de tv, vai acontecer em algum outro cômodo da casa. Se a tal criança ainda for privilegiada, talvez no seu quarto possa viver o tal “mundo à parte”.


Então, naquele dia comum, decidiu brincar com as cortinas! Juntou tamboretes de todos os tipos que havia espalhado pela casa e levou-os para o quarto.


Ufa! Ainda bem que o papai e mamãe estão assistindo esse jornal - pensava aliviado o menino.


E assim, foi juntando: um, dois, três, quatro... acho que foram mais de dez. Puxou a cama para o centro do quarto que também não era tão grande, sobrepôs alguns tamboretes e os usou para colunas, onde jogou a cortina que estava presa no teto sobre eles. Formou-se em torno do quarto um grande vão, um corredor que dava para passar muitos reis, rainhas, vassalos e pessoas de toda sorte do mundo imaginário.


Que delícia ficou isso aqui! – concluiu. Era um outro quarto, aliás nada lembrava o tal cômodo as modificações feitas.


Era hora de brincar. De criar personagens, de fingir ser pessoas que não era, de sorrir de história imagináveis. Então, tirou alguns tamboretes da “coluna” e pegando um lençol que ficava no guarda-roupa criou um trono. Hoje Nandinho seria rei.


Várias pessoas estavam na fila para falar com o monarca. Decidiu sobre vidas, tomou posição na justiça do reinado, foi Salomão na história de duas mulheres que diziam que eram mães de uma mesma criança, mandou prender uns arruaceiros que faziam manifestação na praça...


- Nandinho – chamou a mãe na sala – assim que acabar o jornal quero que venha fazer seu dever.


Aí que chato! Fazer dever? Mas...


- Eu não tenho dever pra amanhã, não! – mentiu.


- É mesmo? Que escola boa essa, heim? – respondeu na sala!


Nandinho sentiu um certo constrangimento com a mentira, estava evidente que a mãe não acreditaria naquilo. Mas não havia lugar para outra coisa a não ser a brincadeira. Acho que valia a pena mentir, mesmo que fosse pra ela.


Voltou para a brincadeira. Mas achou que não tinha nada haver ser rei, afinal de conta vivia em um país que não havia nenhum, pelo menos no papel. Preferiu mudar, seria um executivo, um chefe de seção, um diretor de alguma coisa... Então, lá foi ele. Continuou decidindo sobre a vida das pessoas, agora eram empregados, patrões, serviços gerais, motoristas, etc.


De repente Nandinho começou a sentir orgulhoso por tal brincadeira e pelas decisões que estava tomando. Seu pai poderia ficar orgulhoso, afinal era mais ou menos como o dia-a-dia dele. Decidiu chamá-lo para ver o escritório que havia criado. Havia lugar para as secretárias, para as empregadas e, com boas proporções, o seu próprio escritório. Na verdade, já estava acostumado com as reclamações do seu pai sobre o tamanho da sala que trabalhara por todos aqueles anos e não agüentava mais dividi-la com mais quatro pessoas: ali o seu escritório, que era também o de seu pai, era muito grande e só pra ele. Com certeza, sentiria feliz!


Foi, então, chamá-los para ver o tal local. Claro, que o tal telejornal não havia acabado. Falavam sobre inflação, economia, aumento de tarifas, crises, incêndios, mortes, nascimentos. Nada daquilo fazia sentido para Nandinho, mas seus pais pareciam transtornados.
Porr que será que assistiam todo dia? Será que manter-se informado era aquilo: sentir-se impotente!?



Mas nada daquilo interessava. Apenas queria mostrar seu quarto.


- O que quer, Nando? – perguntou o pai.


- Queria te mostrar um negócio! – respondeu o menino.


- Não vê que estou ocupado? Só depois do jornal. – disse o pai.


Eu espero! – pensou, Nandinho. E ficou sentando até que acabasse o tal jornal.


Oba, um comercial. Quem sabe agora ele pode ir!- alegrou-se o sonhador. Inútil. O pai e a mãe começaram uma discussão sobre o aumento da energia. Falavam em desligar a luz quando saíssem do quarto, do tempo do banho das crianças, da televisão que ficava ligada a tarde inteira! E voltou o tal apresentador a falar sobre notícias do outro lado do mundo. Mas a cabeça de Nandinho não desistia das fantasias. A cada minuto nascia um personagem novo, uma nova decisão... que delícia aquelas invenções.


Acabou o jornal! O pai nem se lembrou que queria mostra-lhe uma coisa. Foram para a cozinha, estavam ocupados com uma nova tarefa. Nandinho ficou meio triste. Decidiu voltar para o seu quarto e continuar brincando. Eram muito distantes os mundos em que viviam.


As horas foram passando, foi dando sono em Nandinho, mas queria mostrar o tal escritório. Resolveu tentar mais uma vez mostrar ao pai, mas quando abriu a porta lá estava ele em pé no vão. O garoto sorriu e o pai não entendeu nada.


- Eu não acredito nisso? Por isso não tem um banco para se sentar nessa casa – trovejou o pai.


Imediatamente ele foi tirando os tamboretes, desfazendo os tais corredores construídos pelo redor do quarto. A sala das secretárias acabou em questão de segundos e a tal sala, que era do pai, se transformou em um monte de panos.


- Estou brincando! – chorou Nandinho.


O pai sentiu um certo ressentimento por aquilo, mas não parou. Para não sentir-se totalmente culpado, decidiu deixar alguns bancos por ali.


- Brinque com estes que estão aí! – decidiu, levando alguns tamboretes embora.


Nandinho tentou refazer os corredores, mas tudo perdeu aquele brilho que tinha conseguido. Os personagens não existiam mais, não dava para brincar com aquela pequena sala, com aquela parede que se levantou com a falta de alguns bancos. Enfim não dava mais para sonhar com aquilo.


Decidiu tirar todos os bancos e voltá-los para seus lugares. Desfez as salas, os escritórios e os palácios, voltou a cama para o lugar “correto” e percebeu que tornar-se adulto era não ver os tamboretes como colunas, as cortinas como paredes, as dimensões maiores do que são... ser adulto talvez seja isso... perder a fantasia dos sonhos e viver na fantasia do mundo real... E assim, Nandinho tornou-se Fernando e não aceitava que o chamassem de Nandinho, pois imediatamente lembrava de um mundo que não existia, o da fantasia. Nandinho era criança.

Eram pessoas diferentes!

20 de julho de 2009

Conto Felizes para sempre - Blog e-Urbanidade

Conto que abriu a série "Felizes para Sempre"
publicado semanalmente no jornal
Tribuna do Brasil
em 2006

Ela sempre gostou de sair de casa, mesmo que fosse para comprar um jornal na esquina.. Gostava de almoçar, jantar, tomar o lanche, um sorvete, conversar com as amigas..., desde que fosse fora de casa. Estava sempre, mais ou menos, pronta pra sair. Bastava um retoque na maquiagem, a troca de alguma peça da roupa e pronto. Já estava lá fora.

Ele já era caseiro. Tentava de todas as maneiras não sair. Preferia comer um miojo feito em casa do que ter que sentar em algum restaurante. Assim, evitava cumprimentar um monte de gente pelo caminho ou comer com uma criança que chorava na mesa ao lado. Até por isso, tinha fixação por aqueles serviços de entrega. Tinha cardápio de todo tipo e era amigo de vários entregadores ou atendentes de telefone. E para sair, sempre tinha uma barba a fazer e a roupa pra trocar.

Ela adorava ouvir música. Tinha todos os lançamentos. Sabia da vida de todos os artistas e quando ia ao show de algum deles, era daquelas que cantava a música todinha. E nunca tinha paciência para filmes, dormia logo depois do trailler.

Ele já adorava cinema. Sabia de todos os diretores, datas, detalhes. Foi crítico de cinema numa revista da faculdade e acabou seguindo carreira no jornal da cidade. Tinha todos os clássicos e não tinha um filme que não soubesse alguma informação. Já de música, não gostava muito.

Num dia de chuva, a luz da casa dele acabou e teve que ir comprar velas. Ela acabara de sair de um show de voz e violão de algum cantor recém conhecido. Por causa da mesma chuva, foram se esbarrar na marquize do mercado, pois até o show teve que parar por causa do temporal. Ele e ela se cruzaram, se olharam e sorriram. Ele esqueceu das velas e ela das músicas do amigo cantor.

A conversa começou a fluir. Falaram da chuva e descobriram que gostavam dos dias chuvosos. Ele disse que adorava tomar chocolate quente nesses dias e ela, também. Ele explicou que foi comprar vela naquele supermercado que odiava. Ela achou impressionante a semelhança, pois ela também odiava ir alí. A conversa foi indo e descobriram o mesmos gostos: no sabor do sorvete, na cor das roupas, nos dias da semana preferidos...

Quando a chuva melhorou, desperiram e descobriram que tinham o carro da mesmar cor, cinza. Riram muito das coincidências e ficaram impressioandos com tanta semelhança. Por isso e por outras mais, casaram e ... foram felizes para sempre?

Ela me disse, há dias atrás, que ele andou melhorando, foi até no show do Caetano com ela. Claro que ele pediu para ela parar de cantar, pois tinha pago uma fortuna por aquele lugar e queria ouvir o cantor. Ele me confessou, na conversa que tivemos à beira da piscina, na feijoada do aniversário dele, que ela já pelo menos sabia quem era Mazzaropi e que até achou interessante, assistir Cidade de Deus no Cine Academia.

São felizes, sim. Hoje nem lembram das semelhanças, só falam das diferenças. Repetem pra todos a mesma história. Mas no fim, dão um beijo e sorriem. Não se largam. Se amam! Acho que amar é isso, apaixonar pelas diferenças. Acho que talvez ele gostaria de sair mais e gostar de música e ela, de ficar em casa e ir ao cinema. Todos apaixonamos pelas diferenças, afinal de contas as semelhanças acabam sendo esquecidas, com o tempo.

3 de maio de 2009

O fim da novela das oito - Crônica - Blog e-Urbanidade


Ele queria ser autor da novela das oito, mas elas não existem mais. Sim, foi isso que acabou de dar no Jornal Nacional. O apresentador entrou com aquele ar triste, definitivo, como se um novo tempo estivesse começando. Havia algumas chamadas ao vivo, um repórter estava no local que gravavam as novelas daquele horário e havia uma comoção geral. Até alguns fãs resistentes estavam na porta da emissora, com placas variadas, dizendo coisas do tipo: “Como viveremos sem Maria do Carmo?”; “Nunca mais ficaremos ansiosos para saber quem matou Odete Roitman!”.

O tema andou por vários dias na mídia, mas é preciso dizer que não foram muitas pessoas que estavam interessadas no assunto. Alguns disseram que era o fim do formato, outros culparam a tal TV Digital. Até o Ministro das Comunicações foi chamado a discussão, pois ele precisava subsidiar as produções que andavam cada vez menos assistidas.

Até uma campanha educativa foi proposta pelo Ministério da Educação, dizia algo do tipo: “a memória do país esta na novela das oito”. Mas ninguém viu direito, até porquê as pessoas não ficaram órfãs das histórias mirabolantes e dos personagens malucos dos novelistas.

Os amores traídos, as peripécias de personagens inusitados, os casos de família foram retirados do horário das oito e estavam dispersos em vários outros canais, com outros formatos e ninguém mais queria assistir aquela história que passava diariamente, no canal fechado, no horário definido. Agora existem várias histórias em formatos diferenciados.

E lá estava Geirton que queria ser autor de novela, mas só aceitava se fosse das oito. Ainda lembrava da família toda reunida para ver o fim trágico de algum personagem. Ou para saber dos últimos acontecimentos da paixão da mocinha que acabara de saber que o amado era pai de três filhos e estava à beira da morte.

Geirton ainda sentia que só seria feliz quando andasse pela rua e ouvisse o eco da vinheta da novela que escrevia.

- Pôxa vida, nas novelas de hoje não existem mais esta possibilidade – declarava, na mesa de um bar, tristemente, como se a vida não pudesse existir mais.

- Os tempos são outros – afirmou um amigo que escrevia uma história para a tevê a cabo. – Qual é o seu sonho? Escrever uma boa história ou apenas a novela das oito?


Geirton ficou calado. Não sabia exatamente a resposta correta. Ficou com a dúvida tradicional dos protagonistas em fim de novela, aquela do “casa-se com fulano ou beltrano?”.


Pensou alguns dias até que sentou frente ao seu computador e escreveu cinco linhas sobre dois grandes personagens Que interessante eram eles! – pensou por alguns instantes. Ainda não sabia se morreriam no final, afinal ainda estava no story line. Mas os protagonistas olharam para Geirton e sorriram.


Naquele momento ele descobriu que buscava boas histórias e isso bastava. A partir deste dia ele também não assistiu mais a novela das oito.